SEGUNDA CHANCE
Father Of The Bride, 1991
Barbara Delinsky

Russ Shaw estava determinado a conduzir a nica filha ao altar. Mas no via a ex-esposa Cynthia desde o escandaloso divrcio. Como se comportariam quando estivessem novamente frente  frente?

Digitalizao e correo: Nina
Estado da Obra: Corrigida


CAPITULO I

Vinte e cinco anos sem voltar para casa era tempo demais. Russell Shaw pensava nisso no vo rumo a St. Louis, de onde partira com dezoito anos. Passara a maior parte de sua vida longe da cidade natal, mas havia deixado parte do corao nela, o que transformava vinte e cinco anos numa eternidade.
Uma camada de nuvens o impedia de ver a paisagem que trazia gravada na memria, mas isso no diminua o entusiasmo da chegada. Na verdade, jamais deixaria de pensar na cidade para onde dirigia-se e no motivo que o fizera voltar. Primeiro, porque ainda sentia uma dor aguda naquela parte do corao que julgava cicatrizada, e depois, porque emoes intensas e inquietantes o impediam de pensar em outra coisa. Nervoso, excitao, medo... E para completar, ainda havia a carta em sua mo.
Abriu-a com cuidado, temendo rasgar o papel tantas vezes manuseado nas ltimas semanas. Como sempre, a primeira coisa que viu foi o timbre no alto da folha. DIANE SARAH BAUER. A letra era confiante, apesar de feminina, bem prpria a uma jovem que havia sido criada na alta sociedade, construra o prprio negcio e estava apaixonada por um homem que julgava o prncipe encantado.
O amor torna as pessoas confiantes. Russell ainda se lembrava daqueles dias, anos atrs, quando sentira-se no topo do mundo. A mor conquista tudo, pensava. O amor era capaz de manter duas pessoas unidas apesar de todas as diferenas sociais, econmicas e culturais, apesar da contrariedade dos pais e de sua determinao em separar o feliz casal.
Havia aprendido que o amor no era to poderoso, mas esperava que Diane tivesse mais sorte que ele. Certamente tinha melhores perspectivas. Era madura, e podia contar com o apoio da famlia, se  que compreendera bem o tom de sua carta.
Vamos nos casar na Saint Benedict's, s duas horas da tarde do sbado. Entre os amigos de vov e mame, os meus amigos e todos os amigos e parentes de meu futuro marido, creio que sero cerca de quatrocentos convidados, todos maravilhosos. Tenho certeza de que vai gostar deles.
Supunha que sim. J conhecera Nick em Nova York, e simpatizara com ele. Proveniente de uma grande famlia italiana, fora criado em Hill, um bairro historicamente tnico. Embora no fossem pessoas pobres, os parentes de Nick eram bem diferentes das pessoas de classe encontradas em Frontenac, o bairro exclusivo habitado por famlias privilegiadas como os Bauer. Russ identificava-se com os Granatelli, pois tambm conhecia o lado das minorias. Sabia que encontraria assunto sobre os quais conversar com eles.
Na verdade, tambm seria capaz de conversar com os outros convidados. Percorrera um longo caminho desde a partida de St. Louis. Como diretor da escola particular de Connecticut, convivia com os filhos das mais abastadas famlias da regio e isso o ensinara a lidar com os ricos. Apesar de ter deixado St. Louis aos dezoito anos levando um corao partido e uma nica mala com todos os seus pertences, transformara-se num homem com traquejo social invejvel, e contava com essa habilidade para enfrentar os prximos cinco dias e superar o inevitvel encontro com Gertrude Hoffman e Cynthia.
A possibilidade de rever Cynthia o assustava. Por causa disso, hesitara muito antes de decidir voltar a St. Louis. Tinha uma vida satisfatria em Connecticut, e no precisava sofrer novamente com a dor de um passado distante. Tambm no desejava provocar tenso, discusses e palavras ressentidas com sua presena, pois sabia que Diane sofreria com isso. O momento era de felicidade, e no queria ofuscar o brilho de um dia to especial.
Devia ter permanecido afastado mas, por alguma razo, decidira voltar. Diane solicitara sua presena naquele trecho da carta, trecho que estava lendo pela centsima vez.
Se Had Matthew estivesse aqui certamente me acompanharia, mas faleceu antes que Nick e eu nos reconcilissemos. Mame pediu ao
irmo de Matthew que fizesse as honras, e embora Ray tenha sido sempre maravilhoso e amigo, no  a mesma coisa. Esse  um dos dias mais importantes de minha vida, e quero que tudo seja perfeito. Por isso espero que comparea e me acompanhe ao altar. Voc  meu pai. Sei que retornar pode ser difcil, mas se puder superar o passado e fazer esse pequeno sacrifcio por mim, minha felicidade ser completa.
Russ acreditava nela. Nos dez ou doze encontros que tivera com Diane nos ltimos seis anos, aprendera a reconhecer sua sinceridade. Embora no fosse o tipo de mulher capaz de impor-se de maneira agressiva, manifestava seus sentimentos atravs do olhar, do sorriso e do tom de voz.
O carinho que sentia por ela to grande, que seria capaz de qualquer coisa para content-la. Diane jamais havia lhe pedido absolutamente nada antes disso, e no podia negar seu primeiro pedido.
O avio comeou a descer e Russ guardou a carta no bolso do palet, bem perto do corao. No sabia se merecia a honra de acompanh-la ao altar no dia de seu casamento. A ltima vez em que fizera algo de natureza prtica para ajud-la havia sido quando ela tinha apenas trs meses de idade, uma noite que recordara centenas de vezes ao longo dos anos. Tendo decidido deixar St. Louis, havia dado banho nela e a preparara para dormir. Lembrava-se de como era pequena e encantadora. Recordava o aroma perfumado do corpo rolio, a pele suave e os sons graciosos que emitia ao chupar o dedo polegar. Lembrava-se de ter apagado a luz, beijado o rosto corado e ter sido envolvido no abrao caloroso de Cynthia, e depois havia mergulhado na mais intensa escurido.
 Aqui fala o comandante  a voz firme anunciou.  Estamos iniciando o procedimento de pouso no aeroporto de St. Louis. O tempo  ensolarado, e a temperatura est em torno dos vinte e cinco graus. Aproveito a oportunidade para agradecer a presena de todos em nossa aeronave e desejar uma tima estadia aos nossos passageiros.
O timbre calmo do piloto trouxe Russ de volta ao presente, da escurido para a luz, do sofrimento  alegria... e estava de volta para cumprir uma tarefa alegre. Sua nica filha ia se casar! Certamente encontraria um antigo colega, um homem que agora lecionava na Universidade de Washington, mas isso seria apenas um pequeno evento em meio ao brilho ofuscante da ocasio.
Jamais pensara em voltar. A mo havia morrido pouco antes de sua partida, e o pai desaparecera sem deixar pistas logo depois de Russ ter ingressado no exrcito. E mesmo que ele houvesse permanecido em St. Louis, no teria voltado aps a Guerra do Vietnam. As lembranas teriam transformado sua vida num inferno.
Portanto, havia ido diretamente para Washington, onde ingressara em Georgetown graas  bolsa de estudos que recebera do governo. Quatro anos mais tarde, com um diploma de Histria no bolso, conseguira empregar-se em Connecticut e construra uma vida totalmente desligada do passado e de St. Louis.
Isso no significava que no pensasse em Cynthia e Diane, ou na vida que poderiam ter tido juntos. Recebia um salrio razovel, suficiente para sustentar as duas com um pouco de conforto... mas no podia voltar. No havia por qu voltar! Cynthia retornara para a propriedade da famlia Hoffmann e conseguira a anulao do casamento. Depois casara-se com Matthew Bauer, que havia adotado Diane e criara como se fosse sua filha.
Pelo menos eram essas as notcias que recebera depois de ter enviado aquela carta, vinte e cinco anos atrs, uma mensagem atravs da qual havia tentado minimizar o sofrimento de Cynthia e faz-la entender por que estava partindo.
Esta  a nica soluo, Cyn. Se eu for embora, eles a aceitaro de volta e cuidaro para que voc e o beb tenham tudo de que necessitam. No tenho condies de oferecer muito. Pensei que fosse possvel, mas agora sei que estava enganado. No posso trabalhar em dois empregos e ainda voltar para casa a tempo de lhe dar o carinho que merece, e no seria justo obrig-la a viver desse jeito.
Russ olhou pela janela e a viso fez seu corao disparar. O Gateway Arch identificava a cidade, mas no teria reconhecido o lugar caso ele no existisse. Jamais havia visto St. Louis do alto, mas vinte e cinco anos de progresso haviam alterado dramaticamente a cidade onde nascera, e da qual lembrava-se to bem.
E por que estava to surpreso? Conhecera diversas reas metropolitanas ao longo dos anos, e sabia que St. Louis encaixava-se perfeitamente na categoria. Mas ver a cidade moderna em contraste com aquela que guardara na memria durante tanto tempo servia para enfatizar a passagem dos anos.
Sabia que tambm havia mudado. Ganhara alguns centmetros na estatura, marcas em torno dos olhos e mechas prateadas nos cabelos negros, mas no sentia vergonha das transformaes. A julgar pelo pouco peso que ganhara desde a formatura e pelos dez quilmetros que corria todos os dias, estava envelhecendo com dignidade.
Sabia que Cynthia tambm estava em excelentes condies. As fotos que via nos jornais eram prova disso. Transformara-se numa linda mulher madura, e seus gestos, cabelos e roupas eram socialmente perfeitos. Gertrude Hoffmann devia estar muito feliz.
No sabia se a velha senhora tomara conhecimento de sua chegada, mas tinha certeza de que Cynthia j o esperava, uma vez que enviara o convite de casamento e o endereara de prprio punho. Depois de ler a carta que Diane lhe mandara, havia escrito uma nota manifestando seu orgulho e avisando que certamente estaria presente para conduzi-la ao altar. Gostaria de saber o que Cynthia e Gertrude pensavam disso.
Diane oferecera-se para ir busc-lo no aeroporto, mas Russ recusara com algumas desculpas polidas e esfarrapadas. Na verdade, sabia que voltar a St. Louis seria uma experincia emocionante, e preferia enfrent-la sozinho e aproveitar o tempo para recompor-se. Queria apresentar-se radiante e firme, digno de conquistar o orgulho da famlia e a simpatia de sua futura famlia. Era o pai da noiva, uma jovem linda, privilegiada e encantadora, e faria de tudo para estar  altura do papel que desempenharia na cerimnia. Tinha algo a provar. Anos antes, Gertrude Hoffmann o considerara indigno do amor da filha baseando-se apenas no endereo de sua casa, e agora a faria ver o quanto subestimara sua capacidade de progredir.
No saguo do aeroporto, Russ recolheu a bagagem e apanhou o carro que o agente de viagem havia alugado no dia anterior. Normalmente seguiria para o hotel e tomaria uma ducha fria, mas desta vez a fadiga provocada pela viagem era menor que a excitao. Quando se deu conta, j havia tomado o caminho para o centro da cidade e apreciava cada detalhe da paisagem com encanto crescente.
Depois de percorrer vrios quilmetros, rever locais conhecidos e ver outros, mais novos, finalmente seguiu para o subrbio, onde ficaria perto da Universidade na qual visitaria um colega e da casa de Cynthia, onde se realizaria a recepo logo aps a cerimnia de casamento. Escolhera o Seven Gables Inn, um hotel pequeno e aconchegante sem a impessoalidade dos grandes complexos tursticos.
Meia hora mais tarde, depois de examinar o quarto bem mobiliado e livrar-se do palet e da gravata, Russ aproximou-se da janela para respirar a brisa do fim de tarde e sentiu-se desfalecer ao abri-la. Um Lincoln prateado havia sido estacionado do outro lado da rua, e uma mulher estonteante surgia de trs do volante. Elegante, alta, e mais magra do que se lembrava... Com aquele traje de linho, os cabelos penteados por mos habilidosas e o requinte com que movia-se, era o retrato da confiana.
Gostaria de sentir-se to seguro quanto ela, mas a viso de Cynthia o fazia tremer. Essa mulher havia sido o centro de seu universo, o motivo pelo qual respirava e vivia, a razo pela qual queria transformar-se num homem digno e capaz de faz-la feliz e amada.
E no conseguira.
Ao v-la entrar no hotel, sentiu o corao disparar como havia acontecido na primeira vez em que a vira, vinte e seis anos atrs, na primeira noite em que saram juntos, no primeiro beijo e na primeira noite de amor. Seu corao batia apressado sempre que a via estampada numa pgina de jornal, como se ainda fosse sua, mas houvesse sido emprestada  outra vida por algum tempo.
E agora estavam prestes a se reencontrar. Mais alguns minutos, e uma batida na porta o fez virar-se como se estivesse prestes a enfrentar o maior de todos os desafios.

CAPTULO II

Cyn Hoffmann e Russ Shaw haviam sido colegas de classe por muitos anos, mas a paixo entre eles nascera no final de agosto, pouco antes do incio do ltimo ano do colgio. Cynthia jamais esqueceria aquele dia enquanto vivesse. Havia ido  lanchonete com um grupo de amigas e o vira atrs do balco, preparando milk shakes e banana splits. Seus olhos eram castanhos e profundos, o queixo insinuava toda a fora de carter que conheceria mais tarde, e o sorriso tivera o poder de enlouquec-la.
Voltara  lanchonete na tarde seguinte, na outra, e na outra, sempre excluindo uma amiga do grupo. Quando finalmente criara coragem para ir sozinha, Cynthia mal provara o sorvete que pedira, tal era sua excitao.
As diferenas tornavam as conversas'interessantes e enriquecedoras, em pouco tempo transformaram-se no casal inseparvel da escola.
Quando Russ a beijara pela primeira vez, Cyn sentira medo de explodir de felicidade. A lanchonete limitava a intimidade que gostariam de dividir, e logo passaram a buscar novos lugares para estacionar o velho Ford de Russell. Os beijos levaram s carcias, que por sua vez foram ganhando intimidade e urgncia, e finalmente havia chegado o dia em que no puderam mais conter-se. Inesquecvel, a experincia repetira-se com freqncia cada vez maior, at que fazer amor havia se transformado em algo to necessrio e natural quanto respirar.
Com a chegada da primavera viera a deciso de casarem-se. Ambos haviam ingressado na universidade, Russ graas  bolsa de estudos que conseguira como jogador de basquete, e esperavam poder contar com alguma ajuda da famlia de Cynthia.
Gertrude Hoffmann havia sido o primeiro empecilho. Planejara convencer a filha a atender s exigncias de seu debut social, como faziam todas as jovens da alta sociedade local, e uma debutante casada era simplesmente inaceitvel. Russell Shaw era inaceitvel! Viera do nada, ia para o nada, e no permitira que arrastasse sua filha nessa esteira de fracassos.
Mas Cyn o adorava, e no conseguia imaginar a vida sem ele. Poucos dias aps a formatura do colgio, ingnua e idealista a ponto de acreditar que os pais acabariam se conformando com o fato consumado, Cynthia o convencera a fugir.
A famlia no reagira como esperava. Pelo contrrio, simplesmente a baniram sem um centavo, o que significava que no poderia ir para a faculdade. Mas o amor que sentia por Russ era to forte, que logo havia se conformado com a interrupo nos estudos. O que realmente a incomodava era o fato dele tambm ter sido obrigado a adiar seus planos.
Determinados, elaboraram um plano de vida de trabalharem juntos e pouparem cada centavo recebido. Depois Russ tentaria recuperar a bolsa de estudos e voltaria a estudar. Seria mais difcil e demorado, mas no impossvel, especialmente se Cyn evitasse a gravidez. O beb nascera nove meses depois do casamento, quando ambos tinham apenas dezoito anos.
Ao longo da gravidez e durante os primeiros meses aps o nascimento de Diane, lutaram para que as coisas dessem certo, mas aquele era um jogo de cartas marcadas. Alm de ganharem pouco, precisavam de todo o dinheiro para garantir a sobrevivncia e nunca conseguiam poupar um centavo que fosse. Pouco antes do nascimento de Diane, Cyn havia sido obrigada a parar de trabalhar e os sonhos tornaram-se ainda mais distantes.
Distantes, mas vivos e fortes, ao menos na cabea de Cynthia. Agarrava-se a eles, certa de que o amor que os unia era suficiente para enfrentar todas as adversidades.
Ento, quando Diane completara trs meses, Russ havia partido e levado seus sonhos. Somente a filha a impedira de sucumbir nos primeiros dias de tristeza e desespero. Depois vieram sua me e Matthew Bauer, mas muito tempo havia se passado antes que pudesse pensar em Russ Shaw sem chorar.
Agora ele estava de volta, e julgava-se preparada para o reencontro. Passara a reunir foras desde o dia em que seu nome surgira na lista de convidados do casamento da filha, e acreditava ter conseguido fortalecer-se o bastante. No sbado, quando o visse, s teria de olhar em volta para lembrar quem era, e qual era o seu lugar. Apertaria sua mo, poderia at cumpriment-lo com um sorriso, mas depois voltaria para a vida que sempre havia sido to boa para ela.
No esperava que, vinte e cinco anos depois, Russ ainda fosse bonito a ponto de fazer seu corao bater mais depressa. No contara com a possibilidade de sentir a mesma emoo daquela tarde, na lanchonete, quando o vira pela primeira vez, e depois a mesma tristeza daquela manh, quando havia acordado para descobrir que seu mundo desabara. No esperava sentir-se to desolada outra vez.
Russ foi o primeiro a vencer o impacto.
	Voc est linda, Cyn.
Gostaria de dizer que ele tambm parecia bem disposto, mas as palavras no conseguiam ultrapassar a barreira da garganta. Agora, alm da beleza que tanto a fascinara na juventude, Russ possua presena e confiana.
Pensando bem... A maturidade tambm lhe trouxera confiana! Era a sra. Matthew Bauer, presidente de dzias de eventos de caridade, a bem sucedida e invejada filha de Gertrude Hoffmann. Mais imediatamente, era a me da noiva, a responsvel direta pelo mais elegante casamento que St. Louis j testemunhara. No podia deixar-se abalar pela presena do pai da noiva, mesmo que no o visse h vinte e cinco anos.
	Como vai, Russ?
	Bem, obrigado.
	Fez uma boa viagem?
	Sim, o vo foi perfeito.
	E quanto ao hotel? Est bem instalado?
	Muito bem, obrigado.
	Cheguei em m hora?
	No, eu... no estava ocupado. No quer entrar?
O que Cynthia realmente queria era correr para Frontenac, onde a manso e a vizinhana conhecida a faziam sentir-se segura e protegida. Mas fugir no a ajudaria em nada. Fora procur-lo com um propsito, e para atingi-lo teria de enfrentar a situao de frente. Respirando fundo, entrou e recusou o convite para sentar-se, certa de que no conseguiria relaxar.
Pensando em facilitar as coisas, aproximou-se da janela e manteve-se de costas para ele.
	Estou me sentindo muito mal a respeito disso tudo, especialmente porque sei que fez uma longa viagem. Diane no tinha o direito...
	De me convidar para o casamento?  Russ cortou.
	De pedir que a levasse at o altar. S fiquei sabendo hoje. Disse a ela que devia lhe telefonar, mas Diane respondeu que era tarde demais, pois voc j estava a caminho. Se Matthew fosse vivo, ele a teria conduzido ao altar. Ele a criou, amava-a como se fosse sua filha, e foi mais amoroso que muitos pais biolgicos. Como Matthew j no est entre ns, o irmo dele far as honras.
Russ no perdeu o tom crtico no comentrio sobre pais biolgicos.
	Diane mencionou sua inteno de pedir a Ray que a acompanhasse, mas no disse que minha presena causaria problemas  respondeu, negando-se a reconhecer a dor que o invadia.
	Eu no disse que est causando problemas. Apenas quero fazer tudo de modo... apropriado. Matthew estava aqui, voc no. Ray estava aqui, e voc no. Aparecer aqui vinte e cinco anos depois querendo assumir seus deveres paternais... no acha que  um pouco ridculo?
	No h nada de ridculo nisso  ele irritou-se.  Dadas as circunstncias, acho que  a soluo mais sensata.
	Que circunstncias?
	Meu relacionamento com Diane. No estou assumindo minhas obrigaes de pai to subitamente como pensa. Mantemos contato h seis anos.
	Eu sei.
	E contra a sua vontade, pelo que posso perceber.
	Eu sabia que Diane o encontrava de vez em quando. Ela  adulta e capaz de decidir a prpria vida.
	Mas voc no aprova.
	No tenho o direito de aprovar ou censurar as atitudes de minha filha.
	Vamos l, Cyn, est fugindo do assunto. Voc  me dela! O fato de Diane ser adulta no a impede de estar envolvida em tudo o que lhe diz respeito. Perguntei se nossos encontros a aborreciam, e acho que a resposta  afirmativa. Ou no teria dito a ela que eu estava morto.
		Eu nunca disse isso.
		Ento, algum disse, porque Diane tinha certeza de que o pai
havia morrido. Quando telefonei para ela pela primeira vez, a pobrezinha ficou to desconfiada que foi at Washington para ver se meu nome constava no Memorial do Vietnam, e s ento concordou com o encontro. Sabia disso?
Cynthia abaixou a cabea, lembrando-se de todo o esforo que tivera de fazer para acalmar a filha e explicar todo o mal entendido.
	Foi... minha me.
	E voc no se preocupou em negar.
	No.
	Isso foi terrvel.
	Diane me disse a mesma coisa.
	E tambm disse  av?
	Sim, embora com termos mais delicados. Diane sempre foi mais independente de Gertrude que eu. Nunca foi ameaada pela av, e sempre conseguiu manter uma certa distncia, apesar da amizade que s vezes demonstram uma pela outra. Na verdade, Diane consegue at sentir compaixo pela av.
	Nunca fui capaz disso, e aposto que jamais serei. Como ela teve coragem de dizer  minha filha que eu estava morto?
	A situao no era muito confortvel para ela. Todos os amigos sabiam sobre nosso casamento e meu afastamento da famlia. Minha me achou mais fcil dizer que voc havia ido para a guerra do que revelar a todos que a filha fora abandonada.  Com tom seco, repetiu as palavras de Gertrude.  Ningum abandona uma Hoff-mann. Somos muito preciosas.
	Sua me me odiava! Desde o incio, fez questo de deixar claro o quanto me julgava intil. Tudo o que precisava fazer para provar que estava certa era dizer que eu havia fugido.
	A guerra era mais digna  Cynthia franziu a testa, repetindo parte da discusso que repetira centenas de vezes nos ltimos seis anos com Diane.  Minha me  uma mulher orgulhosa. O que ela fez e disse sobre voc foi mais para salvar as aparncias do que qualquer outra coisa. Fez com que os amigos soubessem que eu havia sido estpida me casando com voc. Quando soube que eu estava voltando para casa, tentou encontrar uma maneira de me tornar menos estpida aos olhos da sociedade. De qualquer forma, mame no espalhou a notcia de sua morte pela cidade, pois temia ser desmascarada por algum que ainda tivesse contato com voc. Apenas deixava escapar um comentrio muito sutil quando algum fazia perguntas, e mudava de assunto rapidamente.
	Como fez com Diane  Russ concluiu, tentando controlar a raiva.  Ela no fazia perguntas sobre o pai quando era pequena?
	Matthew era o pai que ela conhecia. Ele a adotou legalmente, lhe deu seu nome, e Diane s soube a verdade aos oito anos de idade, quando eu contei tudo.
	Se no disse que eu estava morto, que diabos contou  menina?
	Disse que voc havia nos deixado.
	E ela no perguntou para onde eu havia ido?
	Sim, e eu respondi que voc havia sido mandado para a guerra.
	Mas a guerra j havia acabado.
	Minha me disse a ela que voc estava morto.
	E ela no perguntou nada? Uma criana de oito anos costuma fazer perguntas sobre a morte. O que disse a ela?
	Nada de muito especfico. E tambm no afirmei que estivesse realmente morto.
	Mas tambm no negou.
	Eu no estava em posio de negar nada, particularmente uma afirmao de minha me. Caso tenha esquecido, eu fui deserdada. Fui banida da famlia sem direito a nada! O nico dinheiro que tinha era aquela quantia mnima que voc havia conseguido ganhar. Sabe que ainda passei um ms em nosso apartamento depois que voc se foi?
A lembrana trouxe lgrimas a seus olhos, e a imagem teve o poder de dissipar a raiva de Russ.
	Eu disse que devia voltar para casa.
	Eu queria voc, no uma porcaria de casa!  gritou, sem se preocupar com as emoes que demonstrava. Se Russ acreditava que havia simplesmente voltado para o luxo e o conforto da manso da famlia sem nenhum sofrimento, ento j era hora de saber o que havia suportado.  Tinha esperanas de que pudesse mudar de idia e voltar para mim. Ns nos amvamos, e eu tinha certeza de que conseguiramos realizar nossos sonhos. Mas o dinheiro acabou, e eu fui obrigada a rastejar de volta  casa de minha me.
	Ele no a fez rastejar por muito tempo.
	E isso a torna uma pessoa melhor. Mame nos aceitou, esqueceu o passado e cuidou de tudo num momento em que eu estava arrasada. Se ela quisesse dizer que voc havia bebido at morrer numa sarjeta, eu no a teria desmentido.
	Teria deixado Diane acreditar nisso?
Cynthia no respondeu de imediato. Queria mago-lo, porque ele a magoara, mas nunca havia sido vingativa. Resignada, disse:
	No. Isso seria o mesmo que afirmar que voc era um canalha, e no teria deixado minha filha sentir rancor pelo pai.
O que significava que no o odiava tanto.
	Obrigado.
No silncio que seguiu-se, Russ examinou os traos que nunca havia esquecido. Os mesmos olhos verdes, o mesmo brilho intenso nos cabelos castanhos que um dia afagara... Agora estavam presos, e no sabia se ainda eram longos como antes, mas de repente foi como se pudesse sentir novamente a maciez dos fios sedosos entre os dedos.
	Eu... acho que vou me sentar  ela avisou. O olhar penetrante de Russell sempre a fizera estremecer, e ainda precisavam discutir a questo do casamento. Sentada, cruzou as pernas e ergueu a cabea com dignidade.  Sobre seu relacionamento com Diane...
	No vou desistir dela. No vou fugir. J fiz isso uma vez, porque achava que no tinha escolha, mas no posso repetir o gesto. Ela  minha filha, e basta olhar para ns.dois para ter' crteza disso.
Cynthia seria a ltima a discutir. Lembrava-se de como havia sido doloroso olhar para a filha e reconhecer a semelhana, especialmente nos primeiros anos. Com o tempo, a personalidade vibrante de Diane suplantara a semelhana, mas alguns gestos t movimentos ainda conjuravam a imagem do homem que tanto amar;1 no passado.
	Nunca neguei que ela fosse sua filha, e no esinu exigindo que desista dela. Estou apenas pedindo que deixe meu i 'inhado conduzi-la ao altar.
	Por que isso  to importante?
	Diane sempre foi muito prxima dele c de sua filha. Lisa ser a dama de honra. Ray foi bom conosco durante todo  esses anos, especialmente depois da morte de Matthew, e achei qu^ ele merecia a honra. Alm do mais, j o convidei, e retirar o conv c seria uma grosseria imperdovel.
	No se explicasse o motivo.
	Prefiro no fazer isso.
	Explicar o motivo, ou retirar o convite?
	Os dois.
Russ sentou-se na cadeira oposta  dela e cruzou os dedos, apoiando os cotovelos sobre os joelhos.
	Posso entender o mal estar sobre retirar o convite, mas no sei por que julga to difcil explicar a situao. A menos que... Est saindo com ele?
	 claro que no! Alm de ser meu cunhado, Ray  casado.
	Est saindo com algum?
	No acho que esse assunto seja importante.
	Tem razo. Mas estou curioso  insistiu. Sabia que estava errado, mas era tarde demais para retroceder.
	Voc perdeu o direito  curiosidade na noite em que me abandonou.
	Eu no a abandonei! No como est insinuando.
	Voc partiu. Eu tinha uma filha de trs meses, num apartamento de um dormitrio alugado e mobiliado com coisas de outra pessoa e duzentos dlares na bolsa!
	Eu tinha menos que isso.
Havia tomado o trem levando apenas as roupas do corpo.
	Mas podia trabalhar, e eu no. Voc devia ter cuidado de mim.
	Como? Com um diploma de segundo grau e nenhum talento? Trabalhava em dois empregos mal remunerados, e nas horas vagas a ajudava a cuidar do beb. Estava to exausto, apavorado e frustrado, que no podia fazer nada para melhorar nossas condies. Pode me criticar por ter partido, mas garanto que no foi uma deciso fcil. No sabe a agonia que suportei. Noites e noites acordado, revendo as alternativas, tentando encontrar uma sada... Mas era um crculo vicioso. Sem um diploma universitrio, no podia ganhar mais dinheiro, e sem dinheiro, jamais conseguiria ir para a faculdade. Acha que eu no queria ficar? Adorava o beb, e voc... voc era a luz da minha vida! Queria lhe dar o cu, e no conseguia sequer proporcionar um mnimo de conforto  minha famlia. Se ficasse, estaria condenando voc e Diane a uma vida de trabalho duro, e isso me fazia sofrer. Por isso a mandei de volta para casa.
	Sem perguntar se eu queria voltar.
	 claro que no queria! Sabia que estaria sempre a meu lado, lutando e suportando tudo. Sua me nunca me aceitou, e por isso virou as costas para a filha e a neta. E por causa disso, voc estava sofrendo. Pelo amor de Deus, Cyn, ns vivamos na mais absoluta pobreza!
	Eu no achava to ruim.
	Mas mudaria de idia depois de um ano, ou dois. Pensaria em tudo o que havia perdido, das coisas de que desistira por minha causa, e comearia a imaginar para onde estava indo. E teria me odiado.
	No...
	Sim. Vi a mesma coisa acontecer com meus pais. Mame continuava acreditando que tudo ia melhorar, mas isso nunca aconteceu. A pobreza devora um relacionamento com rapidez assustadora, sabe? Quando ela morreu, j no podia mais sequer suportar a presena de meu pai.
	Mas ns nos amvamos.
	Meus pais tambm se casaram por amor. Pensei que nossa situao seria diferente por causa de sua famlia. Esperava que, se pudesse me sustentar com a bolsa de estudo e eles a ajudassem a se manter, logo seramos capazes de construir nossa vida e seguir em frente sem a ajuda de ningum. Mas acreditei em coisas impossveis...
	Ns dois acreditamos  Cynthia concordou. No o deixaria assumir o papel do mrtir, pois haviam tomado todas as decises juntos.
	Pois nos enganamos. Jamais conseguiramos construir alguma coisa no ritmo em que seguamos, Cyn. Eu a estava arrastando para a misria, e a nica soluo seria partir.
	E ento desapareceu.
	Ingressei no exrcito. Era a nica coisa que podia fazer para no morrer de fome.
	E nunca escreveu uma nica linha.
	Pensei que houvesse voltado para a casa de sua me, e achei que teria problemas se recebesse cartas com o meu nome no envelope.
Sabia que ele estava certo, mas no admitiria.
	Podia ter escrito para Diane.
	Ela era pequena demais para ler, e quando alcanou a idade escolar, voc j havia se casado com Bauer.
	E da? Podia ter escrito para ela da mesma forma. Ela precisava saber que o pai se importava com sua existncia!
	E isso teria tornado a vida dela mais fcil?
	 claro que sim!
	Est tentando se enganar, Cyn. Diane tinha uma vida maravilhosa com voc e Bauer. Aulas de bale, escola particular e grandes festas de aniversrio no jardim da manso. Ela tinha at um cavalo!
	Mas voc ainda no sabia disso.
	Sabia. Os Bauer faziam parte da sociedade, e o Post Dispatch cobria cada passo dos membros da famlia, inclusive os seus.
	Voc lia o Post Dispatch!  surpreendeu-se. Sabia que ele fora morar em Connecticut, e duvidava que um jornal de St. Louis fosse vendido nas bancas daquela cidade.
	Quando deixei o exrcito, trabalhei algum tempo como correspondente. Era a nica maneira de me manter ligado a voc, atento s coisas que fazia.
Cynthia sentiu uma pontada no estmago. Sempre acreditara que Russ havia esquecido o passado, e isso a ajudara a tir-lo da cabea e seguir em frente. Agora, sabendo que ele jamais a esquecera, tudo seria muito mais difcil. Para recuperar o controle, ignorou sua afirmao e mudou de assunto.
	Por que decidiu procurar Diane?
	Li alguma coisa sobre sua formatura no colgio e soube que ela iria para Radcliffe. O ingresso na faculdade me pareceu o momento exato para entrar em contato.
	Quando ela estava longe de mim?
Sempre tivera raciocnio rpido, e essa fora uma das caractersticas que mais o fascinara em sua personalidade.
	No sabia o que havia dito a ela. No sabia o que pensava ou sentia a meu respeito. Por isso, achei que seria mais fcil esperar at que ela sasse de casa. Assim, no teria de lidar com os seus sentimentos, tambm.
	E esperou at que ela estivesse no segundo ano.
	O primeiro ano  difcil para os calouros. Tantas coisas diferentes! Queria que ela tivesse a chance de acomodar-se e adaptar-se  nova realidade, antes de ser surpreendida com mais uma novidade. Alm de desconfiar de tudo o que eu disse, Diane ficou absolutamente perturbada.
	Ela tem os ps no cho  e herdou isso do pai, gostaria de completar.
	Diane  uma garota formidvel, Cyn. Voc fez um excelente trabalho.
	Eu sei  concordou, lembrando-se da participao de Matthew em todo o processo de educao.  E por isso prefiro que Ray a conduza ao altar.
	No precisa sentir vergonha de mim, Cyn. Agora tenho um Ph.D., uma posio de prestgio e uma reputao invejvel. Sei como falar, agir e at como danar uma valsa. Encomendei meu traje na loja em que Nick mandou fazer suas roupas, e estarei to apresentvel quanto qualquer outro membro da sociedade local. E se o problema  dinheiro, tenho o suficiente em minha conta bancria.
	No  isso.
	No? O que , ento? Ray  particularmente sensvel?
	No.
	Ento o problema sou eu. No quer que eu ameace sua posio social. No quer que as pessoas lembrem que um dia casou-se com um pobreto, e que foi deserdada por causa disso. Alguns convidados sequer imaginam que eu existo, e prefere manter o passado em segredo.
	No  nada disso!  levantou-se.  Sou eu! Sua presena me incomoda! Passei meses planejando cada detalhe desse casamento, sonhando com um dia perfeito para minha filha. Quando vi seu nome na lista de convidados, soube que teria problemas mas disse a mim mesma que poderia enfrent-los. Sou adulta, racional, civilizada... mas conduzi-la ao altar  demais!
	Eu sou o pai dela, e o casamento  um marco na vida de qualquer pessoa.
	Como ir para a escola! Por acaso estava l para ver o primeiro uniforme de sua filha? Ou a primeira apresentao de bale?
	No, e j expliquei porque no pude estar presente.
	No estava a meu lado quando fiquei sem dinheiro. No estava comigo quando soube o que devia fazer, mas sentia medo de dar o primeiro passo. No estava perto de mim quando suspeitei que estivesse grvida novamente.
	Grvida...?
	Sim, grvida!
	De outro filho... meu?
	E de quem mais poderia ser? Reconheci os sinais e fiquei apavorada!
	Eu... no sabia.
	 claro que no sabia! Estava ocupado demais brincando de soldado e tentando convencer-se de que havia tomado a deciso mais honrada!
	Brincando de soldado? Eu nunca fui to infeliz!
	Mas no voltou.
	Eu no podia!
	Mas eu precisava de voc!
Vendo o brilho de dor em seus olhos, Russ preferiu silenciar e deixar que os minutos de silncio a acalmassem. A estratgia deu certo e, respirando fundo, Cynthia voltou ao ponto de partida.
	Quanto ao casamento...
	Por favor, Cyn  ele a interrompeu, levantando-se para apanhar a carta no bolso do palet que deixara sobre a cama.  Antes de dizer mais alguma coisa sobre o casamento, gostaria que lesse isso.
Relutante, Cynthia leu a carta e compreendeu que a prpria filha havia pedido que ele a conduzisse ao altar. A iniciativa partira de Diane, o que significava que a presena do pai devia ser de grande importncia. Amava a filha, queria v-la feliz, e seria capaz de qualquer sacrifcio para realizar seus sonhos.
Depois de devolver a carta, Cynthia disse em voz baixa:
	Quando Diane era pequena, eu a mimei terrivelmente. Ela exigia to pouco, que era fcil atend-la. Raramente pedia algo que no quisesse de verdade, e sempre agradecia quando era atendida. Mesmo depois de crescida, Diane continuou a mesma menina simples e sincera. Sei que ela no pode se lembrar de tudo o que passamos em seus primeiros trs meses de vida, mas em alguns momentos tenho a impresso de que a austeridade ficou registrada em seu subconsciente  e respirou fundo.  Vou dizer a Ray que agradeo sua boa vontade.
Sem esperar pela resposta, Cynthia deixou o quarto de hotel e se foi.

CAPITULO III

Russ chegou na manso dos Bauer s nove e meia da manh seguinte, depois de passar pela vizinhana onde crescera e entregar-se s recordaes felizes dos dias em que passeara por aquelas ruas de mos dadas com Cyn. Se houvesse sido mais realista, teria evitado a dor que quase o matara.
O que teria acontecido se, em vez de fugirem, houvessem esperado mais alguns anos para se casarem? Talvez houvesse concludo a faculdade e encontrado um emprego bom o bastante para sustent-la. Talvez ela houvesse mergulhado no turbilho social e desistido de esper-lo.
De qualquer forma, Cynfhia casara-se com Matthew Bauer, um homem totalmente oposto ao que Russ sempre fora. Culto, educado, rico... Havia sido capaz de faz-la feliz?
Se a felicidade pudesse ser medida pela beleza da casa onde morava, a resposta era sim. O jardim bem cuidado havia sido preparado para o casamento, e pensar na felicidade de Diane o fazia sentir-se menos oprimido. Sua visita era esperada pela filha, mas agora que chegara, no podia evitar uma certa hesitao. A. discusso com Cynfhia ainda o intrigava e feria, e gostaria de poder contar com mais tempo para superar todas as acusaes que ouvira.
Diane. Tinha de pensar em Diane. S ela importava, e faria o que fosse possvel para testemunhar esse momento de suprema felicidade. Mas, ao bater na porta de madeira entalhada, foi forado a admitir que era Cynthia quem ocupava a maior poro de seus pensamentos.
 Doutor Shaw?  uma jovem perguntou ao receb-lo.  E claro que sim. A semelhana com Diane  impressionante. Muito prazer  e estendeu a mo.  Sou Mandy Johnson, a secretria social da sra. Bauer.
	Secretria social  Russ repetiu, retribuindo o cumprimento.
	Exatamente. Normalmente trabalho para a sra. Hoffmann, mas estou aqui para ajudar no casamento.
Estava prestes a perguntar h quanto tempo suportava aquela mulher arrogante e antiptica, quando um grito no alto da escada chamou sua ateno.
	Russ!
Diane desceu correndo e atirou-se em seus braos. Depois de beij-la na testa e corresponder ao abrao carinhoso, Russ afastou-se para apreciar a beleza da filha e reconheceu a grife do vestido que ela usava.
	Laura Ashley?  perguntou com tom divertido.
	Eu sei que  totalmente diferente do que costumo usar. Se estivesse em Nova York, certamente estaria vestindo jeans e camiseta, mas aqui  St. Louis, o territrio de Vov-Sabe-Tudo, e pretendo ir visit-la mais tarde.
	Ah... Pois voc est tima, mesmo com esse vestido de Laura Ashley.
	Obrigada. Voc tambm est muito bonito. Gostei da camisa. Nunca o vi sem palet e gravata antes.
	Professores gordos e velhos tambm precisam relaxar de vez em quando.
	Gordo? Velho? Se parecesse um ano mais novo, ningum acreditaria que  meu pai!

	Eu fui um pai adolescente. Rindo, Diane o abraou e perguntou:
	Quer comer alguma coisa?
	J comi, obrigado.
	E uma xcara de caf?
	Seria timo... mas s se estiver pronto.
	Aqui as coisas esto sempre prontas  ela indicou, levando-o por um corredor que passava por trs salas.  A sra. Fritz cuida de tudo.
	A cozinheira?
	Isso mesmo.  Entraram na cozinha, onde uma mulher sorridente e gorda amassava o que parecia ser po caseiro.  Sra. Fritz, este  o doutor Shaw.
	A cozinheira virou-se e, com forte acento germnico, disse:
	Como vai, doutor Shaw? Quero que desculpe a srta. Bauer. Estou cansada de dizer a ela que no deve trazer seus convidados  cozinha. Se quiser comer alguma coisa, ficarei honrada em servi-lo na sala de jantar.
	No precisa nos servir  Diane riu, aproximando-se da cafeteira.  S queremos uma xcara de caf.
Momentos mais tarde, os dois saboreavam a bebida quente e aromtica num terrao lateral de onde podiam ver o quintal, a piscina e vrios canteiros floridos.
	 uma bela paisagem  Russ comentou.
	Ento aproveite, porque no poder v-la to cedo. A empresa que cuidar da recepo comear a trazer o equipamento amanh cedo,, e quando terminarem de montar as cinqenta mesas, as centenas de cadeiras e a pista de dana, esse lugar no ser to tranqilo.
	Mas ser espetacular  ele riu.  Como vai Nick?
	Muito bem.
	Est entusiasmada?
	 claro que sim! E nervosa, tambm. Tantas coisas em que pensar... Mandy tem nos ajudado, e Tammy est fazendo um excelente trabalho. Ela  uma espcie de organizadora de festas. Sabia que se pode ganhar muito dinheiro com isso? Mesmo assim, estou cansada de atender os telefonemas do dono do restaurante, da floricultura, da estilista, da joalhena... Se soubesse que essa cerimnia daria tanto trabalho, juro que teria fugido! No fosse por vov...
	Est fazendo tudo isso por Gertrude?
	Em parte. Ela adora produes espetaculares. Sei que nunca sentiu muita simpatia por ela, mas vov mudou muito ao longo dos anos. Em alguns aspectos,  uma adorvel senhora de idade. Tem muitos amigos, mas sempre volta para uma casa onde apenas os empregados a esperam.  triste.
	Estou surpreso por ela no ter vindo morar aqui com voc e sua me.
	Est brincando? Vov mudou muito, mas no se transformou em nenhum modelo de doura! Se estivesse aqui, j teria enlouquecido a todos. Sabe que ela insiste em perturbar o fotgrafo e o produtor de vdeo com uma idia absolutamente absurda? Quer que os coitados fiquem escondidos atrs das flores durante a cerimnia. Eu devia ter fugido!
	No. Isso no teria sido certo.
	Mas foi o que voc e mame fizeram.
	Ns no tivemos escolha. Se houvssemos revelado nossos planos  sua av, ela no teria permitido o casamento. No teramos tido uma filha maravilhosa, e isso seria terrvel.
	Oh, Russ! Estou to feliz por ter vindo! No me importo se ela est furiosa ou...
	Sua me?
	Vov.
	Gertrude est aborrecida?
	Ontem  tarde ela teve um ataque de nervos, mas ficou mais calma quando mame voltou para casa. Sinto muito, mas duvido que ela venha cumpriment-lo. Isso o incomoda?
	Eu j esperava. Acha que sua me ficou perturbada com minha presena?
	Um pouco. Por isso achei que seria melhor se chegasse na segunda-feira. Agora ela ter uma semana para acostumar-se com a idia, e no ter tremedeiras no dia do casamento.
	Tremedeiras?  Russ espantou-se. A sofisticada e elegante Cynthia Bauer?  Por que acha que ela teria tremedeiras?
	Porque voc j  lindo num terno comum. Num fraque, aposto que ser uma ameaa a equilbrio de muitas mulheres.
	Todas as filhas so especialistas em adulao, ou a minha  um caso especial?
	Acho que estou tentando recuperar o tempo perdido  ela riu.
	Eu tambm, querida.
Um movimento chamou a ateno dos dois e, virando-se, Russell viu Cynthia atravessando o quintal com passos apressados e prendeu o flego, aturdido com sua beleza. A julgar pelas roupas esportivas e o par de tnis, estivera correndo para manter a boa forma.
	Ol, mame  Diane cumprimentou entusiasmada.  Chegou em boa hora. No quer tomar caf conosco?
Forando um sorriso, Russ brincou:
	Essa mulher no pode ser sua me. E jovem demais!
	Acontece que ela  minha me, e s vezes me mata de vergonha. E to linda e elegante, que chega a ser irritante!
	Desde quando ela corre?
	Desde sempre. No consigo me lembrar um nico dia em que ela no tenha feito exerccio. Mame diz que isso a deixa mais lcida.
Russ conhecia os benefcios da atividade fsica por experincia prpria, mas o efeito positivo de sua corrida matinal havia desaparecido. Cynthia continuava parada, sem saber o que fazer, e a viso o deixava atordoado e tenso.
Felizmente a sra. Fritz saiu da cozinha e, batendo a porta, criou uma distrao.
Aliviada, Cynthia aceitou a toalha que a cozinheira lhe entregava e enxugou o rosto. No estava preparada para encontrar Russ em sua casa, especialmente depois de passar a noite acordada tentando analisar os sentimentos despertados pela discusso.
Tentando ganhar tempo, esvaziou o copo de gua que a sra. Fritz trouxera com a toalha e respirou fundo, obrigando a respirao a voltar ao ritmo normal.
	Caf, senhora?
	No, obrigada  e esperou ate que a empregada retornasse  cozinha para encarar Russ.  Desculpe. Se soubesse que estava aqui, no teria entrado correndo desse jeito.
	A casa  sua  ele respondeu, incapaz de desviar os olhos daquele rosto.  Pode correr quando e por onde quiser. S passei por aqui para dizer ol a Diane e saber se voc est bem.
	Estou muito bem, obrigada.
Sabia que devia desculpar-se e entrar, mas no conseguia mover-se. Tambm no sentia-se capaz de ficar em p, exposta e indefesa, e por isso foi sentar-se na cadeira  frente da dele. Com a toalha em torno do pescoo, cobrindo os seios palpitantes, sentia-se mais segura.
	Sua casa  maravilhosa, Cyn. Matthew j a possua antes do casamento?
	No. A antiga proprietria faleceu e a casa foi posta  venda pelos herdeiros alguns meses antes de nos casarmos, e decidimos compr-la e fazer uma grande reforma.
	Reforma?
	O estado de conservao da casa era pssimo, e tivemos de substituir todo o encanamento. Tambm trocamos o piso, o aquecimento central e reconstrumos o jardim.
	Seu paisagista deve ser brilhante.
	Eu no contratei um paisagista. Sabia exatamente o que queria fazer, e dirigi o trabalho dos jardineiros sozinha.
Embora impressionado, no estava surpreso. Sempre soubera que Cynthia era capaz de fazer tudo a que se dispusesse, independente de sua condio financeira. Desde cozinhar e manter o apartamento limpo c arrumado, at cuidar do beb e das roupas da famlia, sempre cumprira todas as tarefas com perfeio.
	Aposto que criou o projeto com essa ocasio em mente.  o cenrio perfeito para um casamento. Se o sol cooperar...
	Ele vai cooperar  Cynthia sorriu.  O sol raramente deixa de comparecer a um casamento.
	A mesma otimista de sempre. Acho que nunca conheci uma pessoa to positiva quanto voc. Quando estvamos na escola, voc estudava apenas o suficiente e mantinha-se tranqila, certa de que se daria bem nos exames. Quando procurvamos um apartamento, voc sempre repetia que encontraramos algo que pudssemos pagar, e encontramos. Quando andvamos horas cm busca de empregos, voc sabia que logo os encontraramos, e em locais to prximos que poderamos almoar juntos todos os dias. E foi o que aconteceu.  Lembrava-se daqueles almoos, e Cynthia tambm devia recordar-se, ou no teria aquele brilho melanclico nos olhos.
	Sacos de papel com sanduches de gelia e pasta de amendoim, ou creme de queijo e azeitonas, ou atum... dois para voc, um para mim. Batatas chips que normalmente acabavam esmagadas antes do almoo. Uma ma. E uma garrafa trmica de chocolate quente.
	Que estava sempre cheio de nata.
	Eu vivia dizendo que o leite devia ser desnatado, mas voc no ouvia.
	Tambm disse que no precisvamos correr para o hospital quando a bolsa se rompeu... e voc quase nasceu no caminho  disse, virando-se para Diane e surpreendendo-se ao ver seus olhos cheios de lgrimas.  O que foi?
	Nada...  estranho ver vocs dois juntos.  como se o crculo se completasse, e s vsperas do meu casamento. Potico, no?
Emocionado, Russ abraou-a e Cynthia sentiu o impacto de v-los juntos pela primeira vez, pai e filha. A espontaneidade de Russell e sua evidente afeio eram prova de que teria sido um pai maravilhoso, se no houvesse se afastado. Sabia que agora ele tentava recuperar o tempo perdido com carinho e ateno constantes, mas preferia que a filha pudesse ter contado com a presena do pai verdadeiro desde a infncia.
Sem tomar conscincia de que lamentava mais por si mesma do que por Diane, levantou-se e deu alguns passos em direo  casa.
	Cyn?
	Preciso tomar um banho  respondeu. Ignorando o estalo da cadeira de vime, seguiu em frente e foi alcanada no momento em que abriu a porta da cozinha.
	Espere  Russ pediu em voz baixa.  H algo que quero perguntar.
Cynthia mantinha a cabea baixa, mas era intil. No precisava encar-lo para saber que seus olhos brilhavam intensamente, como quando o conhecera.
	Estou suada, descabelada... No posso ficar sentada aqui fora sem ao menos tomar uma ducha.
	J vi voc pior.
	Quando ramos crianas. Agora as coisas so diferentes.
	No precisa fazer cerimnia comigo, Cyn. Sou praticamente da famlia.
Surpresa, Cynthia finalmente encarou-o.
	No, Russ. Voc no faz parte da minha famlia. Nosso casamento foi anulado h mais de vinte anos.
Vendo a dor e a melancolia estampadas em seu rosto, Russ espantou-se. Esperava que ela j houvesse esquecido o passado de uma vez por todas. Afinal, casara-se com um homem rico, conhecido, e vivera muitos anos ao lado dele.
	Era... mais ou menos isso que queria lhe perguntar.
	Sobre a anulao  ela surpreendeu-se.  Est pensando em se casar novamente?
	No, no. Mas um dos padres que estaro realizando a cerimnia de casamento de Diane  um velho amigo...
	Jackie Flynn!
	Mais conhecido no meio do basquete como o Armador Bbado  Russ riu.
	Eu no o chamaria por esse apelido. Hoje ele  o padre John.
	Padre John... Escrevi contando que viria para o casamento e ele sugeriu que eu telefonasse, o que fiz esta manh. Ele nos convidou para jantar no Ritz.
	Ns?
	Foi o que ele disse.
	No Ritz?
Russ encolheu os ombros.
	Isso  absurdo! Aposto que a igreja pode gastar seu dinheiro em coisas mais teis.
	Foi o que eu disse.
	E o que ele respondeu?
	Que ns dois fizemos contribuies generosas em funo do casamento de Diane, e isso  o mnimo que ele pode fazer para demonstrar sua gratido. Alm do mais, ele no vai pagar nada pelo jantar, porque fez uma aposta com o proprietrio e venceu.
	O patife...
	Foi o que pensei. E ento, o que diz? Tem algum compromisso para esta noite?
	No, mas...
	Ele sugeriu que o apanhssemos na reitoria s sete. Algum problema?
	No, mas...
	timo  Russ suspirou.  Ele faz muita questo da nossa presena, e no queria desapont-lo.
	Mas voc  amigo dele  Cynthia protestou, questionando a necessidade de passar mais tempo que o absolutamente necessrio ao lado de Russell. Algo lhe dizia que isso s traria sofrimento.  Vo querer falar sobre os velhos tempos, matar as saudades... No seria melhor se fossem sozinhos?
	Ele disse que queria discutir alguma coisa sobre o casamento.
	J discutimos tudo o que havia para ser discutido.
	Mas ele quer falar conosco.
Cynthia fechou os olhos. Russ estava sendo persistente, e no sabia como lidar com a situao.
	Sei o que est pensando  ele disse em voz baixa.  E pode ter certeza de que parte de mim concorda com isso.
	Tambm acha que no devemos ir?
	Acho que no devemos testar o destino dividindo a mesma mesa. Mas ele  um sacerdote! No poderamos encontrar acompanhante melhor.
Acompanhante! Arbitro seria uma palavra mais adequada, se corriam o risco de ter mais uma discusso como a da noite anterior. Ou vigilante, se no se acostumasse com a presena dele o mais depressa possvel. Compreendia as reaes fsicas despertadas por sua chegada, uma vez que a sexualidade sempre havia desempenhado papel primordial na unio. Mas a unio havia acabado h muitos anos, e as reaes tambm teriam de desaparecer. Era necessrio!
	Tudo bem. A que horas devo estar pronta?
	s seis e quarenta e cinco?
	Estarei esperando.

CAPITULO IV

Cynthia passou a maior parte do dia tentando encontrar uma maneira de escapar do jantar, mas foi intil. Quando a noite chegou, encontrou-a sentada  cabaceira da grande mesa de carvalho da sala de jantar, usando um vestido de seda cor de creme e um xale do mesmo tecido com estampas coloridas e vibrantes. Depois de como Russ a vira naquela manh, sentira-se compelida e desfazer a m impresso.
A campainha tocou s seis e quarenta, o que no a surpreendeu. Russ sempre fora pontual a ponto de adiantar-se, e por isso tomara o cuidado de estar preparada desde as seis e meia.
Sentindo o corao bater mais depressa, levantou-se, respirou fundo e esperou alguns segundos at recuperar um mnimo de compostura. Em seguida dirigiu-se ao hall, onde Robert, o mordomo, recebia o visitante.
	A sra. Bauer, por favor?
	Obrigada, Robert  Cynthia agradeceu em voz baixa.
Ao v-lo inclinar-se e retirar-se em silncio, Russ no pde conter-se e comentou:
	Ele parece muito digno.
	Robert  casado com a sra. Fritz.
	Est brincando!
	No. Eles esto conosco h anos. Alm de mordomo, Robert tambm serve como motorista, mensageiro e coordenador dos outros criados. E como se no bastasse, ainda cuida das roseiras.
	Um verdadeiro mestre da versatilidade!
	Acho que sim  ela riu.
	E quanto a voc... est simplesmente encantadora!
Cynthia agradeceu, dizendo a si mesma que o elogio era apenas uma gentileza, que Russ no significava nada e que as batidas aceleradas de seu corao deviam-se  ansiedade provocada pelo casamento de Diane.
	Voc tambm est muito bonito  respondeu, tentando retribuir a cortesia.
	O qu?
	Voc...  e ergueu os olhos para encar-lo.  Voc parece to adulto, Russ!
	Mas eu sou um adulto.
	Sim, mas a imagem que carreguei na lembrana durante todos esses anos foi a de um rapaz de dezoito anos.  estranho rev-lo aos quarenta e trs! Acho que nunca o vi vestido desse jeito.
	Quando nos conhecemos, eu no tinha dinheiro para comprar um terno.
	... No importa. Voc est muito bem.
	Obrigado.
Ainda era o mesmo encabulado de antes, capaz de corar ao ouvir um elogio inesperado. Embora no estivesse vermelho, adorava aquela expresso envergonhada que via em seu rosto, to diferente das roupas e maneiras sofisticadas que adquirira ao longo dos anos.
Lembranas...
Desviando os olhos dos dele, consultou o relgio de pulso e perguntou:
	Quer beber alguma coisa antes de sairmos?
	No, obrigado. Aposto que John nos far tomar um aperitivo na reitoria, e nossa reserva foi feita para as oito. Est pronta?
Depois de pegar a bolsa no armrio do hall, Cynthia seguiu-o at o carro e partiram.
A reitoria ficava numa pequena casa de pedras atrs da igreja, e John os esperava com expresso ansiosa. Ao receb-los, sorriu para Cynthia e beijou sua mo com gentileza, mas Russ mereceu um abrao apertado e prolongado, uma demonstrao da antiga e sincera amizade que existia entre eles.
	 bom v-lo, Russ!  e deu vrias palmadas em suas costas. No instante seguinte, virou-se para Cynthia e, com ar mais srio, informou:  Esperei por esta noite com enorme ansiedade, mas infelizmente o Ritz ter de esperar... por mim, pelo menos. Recebi um telefonema h vinte minutos de um dos paroquianos, e parece que houve um srio acidente.
	Oh, meu Deus!  Cynthia assustou-se, pensando na possibilidade de conhecer a vtima.  Um acidente de automvel?
	No, um acidente de trabalho numa obra. A pessoa que me telefonou estava muito aflita, e prometi que iria para o hospital o mais depressa possvel. Tentei avis-los, mas vocs j haviam sado e achei melhor esper-los. Sinto muito, mas minha presena  realmente necessria.
Russ sabia que devia tratar-se de uma emergncia.
	No precisa se desculpar, John. No sabe quantas vezes fui chamado no meio de um compromisso qualquer para atender a uma emergncia nos dormitrios. Certos trabalhos exigem disponibilidade integra], e o seu  um deles. Lamento termos de esperar uma nova oportunidade para conversarmos.
	Encontraremos outra mais depressa do que imagina. Enquanto isso, por que no aproveitam e vo ao Ritz como meus convidados?
	Oh, no, Padre John!  Cynthia protestou.  No podemos aceitar.
	Mas j est tudo arranjado. O proprietrio perdeu uma aposta e... Bem, j falei com ele e vocs esto sendo esperados.
Russ sentia-se to desconfortvel quanto Cynthia.
	Por que no deixamos para amanh? Podemos telefonar para o restaurante e adiar a reserva.
	Oh, no  o sacerdote balanou a cabea.  Temos o ensaio do casamento amanh  noite. Quinta-feira iremos ao jantar no Gra-natelli's, o restaurante dos pais do noivo, e Cynthia no vai querer sair na noite anterior  cerimnia.
	Eu no me atreveria  ela riu.  Annie D'Angelo estar em casa com as damas de honra. Diane pode ficar nervosa, e quero estar por perto caso ela precise de ajuda.
	Portanto, tero de ir ao Ritz esta noite  o religioso concluiu.
	E depois me contem como foi o jantar. Russ, podemos conversar na quinta-feira, durante o jantar??
	E claro que sim.
	Ainda acho que no devamos ir sem o padre John  Cynthia insistiu, nervosa com a possibilidade de estar sozinha com Russell.
	De que vale ter ganho uma aposta, se no pode receber seu prmio?
	Estou recebendo.
	Ns iremos receb-lo em seu lugar!
	Eu sou um padre, Cynthia. Fiz alguns votos, e ir ao Ritz  negar alguns deles. Alm do mais, essa posta foi apenas uma de uma srie. Fiz outra com o Cardeal, e tenho certeza de que vou venc-la tambm. Terei uma noite difcil, e saber que pude proporcionar alguma diverso a vocs dois ser um grande consolo  e abraou-os, conduzindo-os at o carro.  Teriam coragem de me negar essa alegria?
	Isso  chantagem  Cynthia censurou-o.
	Vejo que Jackie Flynn continua vivo atrs dessa batina  Russ brincou.
	O bom Deus entende que nem o mais piedoso dos homens  santo.
	Que graa ter o jantar sem voc?  Cynthia ainda tentou, acomodando-se no banco do passageiro.
John fechou a porta e inclinou-se para responder atravs da janela.
	Vocs faro a diverso. Ainda me lembro de um tempo em que no queriam a companhia de ningum...
	Esse tempo acabou  Cynthia indicou com tom triste, respirando fundo antes de concluir.  Pensaremos em voc durante o jantar. Espero que tudo d certo.
	Eu tambm  ele sorriu, os olhos fixos em Russ.  E ento? Quinta-feira  noite?
	Combinado.  Depois de um ltimo aceno, Russ ligou o motor e partiu.
Havia percorrido apenas um quarteiro, quando compreendeu o que o Armador Bbado havia feito e o que pretendia. Passara a bola para Russ e agora esperava que a colocasse na cesta. Mas no jogava h muito tempo, e desta vez a cesta era alta demais.
O silncio reinou por mais alguns minutos, at que, desesperado para saber o que Cynthia estava pensando, ele comentou:
	Foi uma pena. Estava ansioso para conversar com John. Gos
taria de saber quem se feriu no acidente...
Cynthia estava mais interessada no homem sentado a seu lado e na noite que teriam pela frente. Ao ouvi-lo referir-se ao acidente, sentiu-se culpada. Algum estava entre a vida e a morte num leito de hospital, e ela preocupava-se com o que as pessoas pensariam se a vissem entrando no Ritz-Carlton com o homem que um dia fora seu marido!
	Um acidente...  disse.  Sempre tive medo que algo terrvel acontecesse a Diane. Quando penso nela sozinha num lugar como Nova York... Felizmente agora ela ter Nick a seu lado.
	No diga isso a ela. Diane ficar furiosa e responder que  perfeitamente capaz de cuidar de si mesma.
	Eu sei que , mas me preocupo da mesma forma.
Russ ia dizer que a preocupao faz parte da personalidade das mes, quando percebeu que ela mantinha o rosto virado para a janela.
	Cyn, se prefere ir embora... Se acha que estar comigo vai causar algum tipo de mal estar, posso lev-la para casa.
Mal estar? Era isso que estava sentindo? No. Jamais sentiria-se desconfortvel ao lado dele. Era uma pessoa to agradvel, to calma! Quando estavam no colgio, gostava de ouvi-lo falar sobre suas aulas, sobre o que fazia nas horas vagas e os problemas que enfrentava no trabalho, atrs do balco da lanchonete. Vinte e cinco anos haviam se passado, e ainda queria saber tudo sobre ele.
E era isso que a fazia pressentir o perigo. Ele no a tocara uma nica vez, mas...
	Cyn?
	Mas a atrao ainda existia, forte como antes. A voz e o olhar tocavam com o mesmo poder de seduo das mos, mas sabia que era capaz de lidar com isso. Estava determinada a lidar com isso! Depois de tudo o que enfrentara para preparar o casamento, merecia um jantar quieto e relaxante num lugar agradvel e bonito. E quem melhor para acompanh-la do que o pai da noiva? Alm do mais, estava curiosa. Havia percebido que a vida de Russell passara por grandes transformaes, e queria saber mais a respeito.
	Posso suportar  disse, mais para si mesma do que para ele. A resposta foi mal interpretada.
	No me faa favores!
	Por que est dizendo isso?
	Porque no estou to desesperado por companhia que no possa comer sozinho.
	J disse que vou.
	Mas falou como se jantar comigo fosse uma espcie de castigo, e nesse caso prefiro comer sozinho.
	Acho que prefere mesmo! Est falando como quem quer encontrar uma boa desculpa para escapar.
	 voc quem quer escapar.
	Eu disse isso?
	No, e jamais diria.  educada demais para dizer esse tipo de coisa.
	Com relao a voc, posso dizer tudo o que quiser!
	Exatamente, e por isso acho que no devemos jantar juntos. Est furiosa comigo por algo que fiz h vinte e cinco anos. No pde conter-se na noite passada, e tambm no vai conseguir controlar-se hoje.
	Porque ainda di!
	Vinte e cinco anos depois?
	Sim, vinte e cinco anos depois!
	J devia ter superado.
	Pensei que houvesse, mas v-lo trouxe tudo de volta.
	Mas no devia, droga! Ningum passa tanto tempo guardando esse tipo de coisa.
	Vinte e cinco anos no representam nada para pessoas que sentem o que sentimos! Est querendo dizer que esqueceu tudo depois que partiu? Que nunca acordou no meio da noite sentindo-se arder?  Cynthia arrependeu-se antes mesmo de completar a frase, mas j era tarde demais. Alm do mais, estava sendo sincera, e ningum podia censur-la por isso.  Se pode afirmar que superou tudo o que houve entre ns, ento eu estava enganada. Foi tudo uma iluso.
As palavras ecoaram no carro por algum tempo, at que Russ estacionou no acostamento, desligou o motor e respirou fundo, lutando para manter o controle e a lucidez.
	No foi uma iluso. O que tivemos foi a coisa mais linda que j existiu entre um homem e uma mulher. Em alguns momentos a sensao de perda foi to insuportvel, que cheguei a perder a vontade de lutar e voltar da guerra com vida. Se sobrevivi, foi porque algum estava olhando por mim l de cima. Quando voltei inteiro, decidi que devia alguma coisa  esse Algum por tudo o que havia feito por mim, e ento trabalhei duro. Estudei como um maluco, consegui um bom emprego e me dediquei, mas podia ter feito diferente. No havia ningum por quem tivesse de me esforar. Havia perdido voc, e se acha que foi a nica a passar noites e noites acordada, est enganada. E quanto ao tempo... voc est certa. Vinte e cinco anos no representam nada quando os sentimentos so to fortes. S tentei sugerir o contrrio para negar as coisas que senti ao rev-la. No queria que acontecesse, no planejei nada... mas estou sentindo as mesmas coisas novamente.
Cynthia gostaria de tomar as mos dele entre as suas e dizer que passava pela mesma coisa, mas no se atrevia.
	Talvez sejam as recordaes. Talvez esse sentimento seja apenas a lembrana do que tivemos no passado.
	Talvez.
	Talvez seja apenas um resduo das coisas que no resolvemos depois de sua partida.
	Talvez.
	Talvez no seja o que realmente sentimos... Quero dizer, o que voc e eu sentimos como os indivduos que somos hoje. Talvez seja apenas uma sombra dos bons tempos.
	Talvez. E como vamos lidar com isso?  ele perguntou.
	No sei. Voc sempre foi o mais sensato. Como vamos lidar com isso?
	Acho que precisamos conversar. Temos de nos conhecer como somos agora e colocar a realidade entre o presente e o passado.' Pode ser que, conhecendo um ao outro de verdade, sejamos capazes de encontrar um confortvel meio termo.
	Alguma coisa entre a atrao e o antagonismo?
	Exato.
	Acha que isso  possvel?
	Tenho certeza que sim. Nunca fomos pessoas antagnicas.
	E quanto  atrao...
Russ encarou-a e lembrou de todas as vezes em que sonhara t-la nos braos. A manh sempre afastara seu rosto para o fundo da memria, mas agora ela estava ali, ao alcance da me, depois de anos e anos de sonhos.
	Acho que ainda existe  confessou em voz baixa, temendo que as palavras trouxessem com elas algum tipo de ao.  Olhe para mim, Cyn.  O que viu em seus olhos era o reflexo do que sentia no prprio corpo, e isso quase o fez perder o controle. Devagar, ergueu a mo e tocou-a no rosto, surpreendendo-se ao constatar que a pele ainda tinha a mesma maciez da juventude.  Sim, ainda existe.
	Eu sei  Cynthia murmurou.
	Mas agora somos adultos, e podemos resistir.
	Temos de resistir. No suportaria a mesma dor novamente. 
	E quanto  felicidade? No gostaria de experiment-la outra vez?
	Oh, meu Deus!  Estava se perdendo na profundidade daqueles olhos castanhos, na rouquido da voz e nas novas mechas prateadas de seus cabelos negros. Nesse momento, nada a faria mais feliz do que ser beijada por esse homem.
Incapaz de conter-se, Cynthia tocou-o no rosto e deslizou os dedos pelos traos conhecidos.
	No faa isso, Cyn. Voc sabe que nunca fui capaz de resistir... Mais um pouco, e esquecerei o maldito jantar e a levarei para o meu quarto no hotel.
Por mais tentadora que fosse, sabia que a proposta s os levaria ao desastre. Talvez precisassem dar vazo aos sentimentos para super-los, mas... e se a proximidade s os intensificasse?
Num esforo supremo, afastou-se dele e disse:
	Tem razo. Vamos jantar.
	Fale-me sobre sua vida  Russ pediu.
Haviam chegado antes da hora estipulada na reserva, e os garom os encaminhara ao bar para que tomassem um drinque.
Cynthia bebericou o martni, sentindo-se mais segura agora que a intimidade do carro fora trocada por um ambiente pblico e movimentado.
	 um pedido bastante amplo. Por onde devo comear?
	Pelo comeo. Do dia em que parti.
	Naquela poca, pensei que isso fosse o fim, e no o comeo. Num dia estava feliz a seu lado, e no outro... Tinha certeza de que a vida havia acabado.
Russ sabia que o que estava prestes a ouvir seria doloroso, mas precisava saber. O que acontecera depois de sua partida fazia parte da pessoa em que ela transformara-se.
	O que sua me disse quando foi bater em sua porta?
	Eu telefonei. No tive coragem de ir procur-la sem saber se ela me rejeitaria, depois de voc...
	Eu no a rejeitei.
	Mas era o que eu sentia naquela poca. Estava vulnervel, e por isso decidi telefonar.
	O que disse a ela?
	Nada. Apenas chorei, e minha me entendeu a mensagem. Consegui dar o endereo do bar onde estava, e dez minutos depois ela chegou para me apanhar.
	Devia t-la procurado antes.
	Eu no pude. Levei um ms para reunir a coragem necessria.
Russ bebeu um pouco do usque, aproveitando os segundos para banir o tremor da voz.
	Queria que fosse para casa, porque sabia que ela cuidaria de voc, mas temia que Gertrude transformasse sua vida num inferno.
	Lembrando minha estupidez  toda hora? No. Mame no disse uma s palavra sobre o que havia acontecido. Estava magoada, desolada com sua partida, e ela percebeu tudo assim que olhou para mim. Tornou as coisas to fceis, que sa da depresso pronta para ser a filha que ela sempre havia desejado.
E quem havia cuidado de Diane durante esse perodo de depresso?
	Aposto que sua me cuidava at das mamadeiras de Diane  ele comentou, tentando descobrir a resposta.
	No. Amamentei minha filha at seu primeiro aniversrio.
Tentando esconder o alvio, Russ perguntou:
	E qual foi a reao de Gertrude? Se a conheo bem, deve t-la censurado por insistir numa prtica vulgar e prpria para as pajens.
	Foi exatamente o que aconteceu. Mas a opinio de minha me no fazia a menor diferena quando o assunto era Diane. Ela era minha filha, e cuidar dela era a nica coisa que me proporcionava um pouco de paz.
	E quando conheceu Matthew?
	Quando era criana, muito antes de conhecer voc. Ele era dezesseis anos mais velho que eu, mas freqentava os mesmos crculos que minha famlia. Um dia, quando Diane tinha um ano e meio, estvamos no clube e ele se aproximou para conversar. Dois meses depois ficamos noivos, e nos casamos sete meses mais tarde.
	 Por que esperaram sete meses? Queria que Diane se acostumasse  presena dele?
	No. Eles se entenderam desde o incio. Minha me insistiu na espera, porque queria compensar tudo o que lhe fora negado na primeira vez. A festa de noivado, o enxoval, o vestido de noiva, o ch de panela... Tudo completo. No imagina como ela ficou feliz.
	E voc?
	Quer saber se eu estava feliz? No. Se me diverti com as festas? Sim. No rejeitei meu mundo quando me casei com voc. Graas  minha me, foi esse mundo que me rejeitou. Mas havia crescido no meio daquela gente, e no tive dificuldades para me readaptar. Gostava... gosto de muitas dessas pessoas.  claro que tive de aturar os arrogantes, mas eles existem em todos os nveis da sociedade. Cerquei-me dos que valiam a pena, pessoas que trabalham comigo angariando fundos para o museu de arte o hospital do cncer. Foram esses que me ajudaram a recolher dinheiro para os sem teto muito antes disso se tornar moda. Acho que no tenho de me desculpar por nada do que fiz desde ento.
Por um momento, Russ teve de lutar para no critic-la. Afinal, enquanto servia-se de canaps arrumados em bandejas de prata, ele rastejava nas trincheiras sujas de um pas distante. Mas se Cynthia aproveitara as circunstncias para construir algo de *til e ajudar os necessitados, quem poderia censur-la? Tinha de respeit-la por agir de acordo com suas crenas.
	Com licena. Doutor Shaw?
Russ virou-se e viu-se diante de um rosto conhecido. Em segundos identificou-o e reconheceu o pai de um de seus alunos.
-  estranho ver as pessoas fora de seu contexto  sorriu, levantando-se e estendendo a mo.  S nos encontramos em Con-necticut, mas agora me lembro de ter ouvido Chris comentar alguma coisa sobre ser de St. Louis. Como vai, sr. Mason?
	Muito bem, obrigado. Estava sentado naquela mesa com alguns amigos, tentando descobrir de onde o conhecia... no esperava v-lo to longe de casa.
	Estou aqui para assistir a um casamento. Conhece Cynthia Bauer? Cyn, este  Phillip Mason, pai de um de meus mais promissores alunos.
Cynthia sorriu e estendeu a mo.
	Acho que j fomos apresentados antes  e franziu a testa, tentando lembrar-se exatamente quando e onde.  No esteve com os Grahams no Powell Hall?
	Vejo que tem uma memria invejvel. No est organizando um casamento?
	Exatamente.
	E qual  a ligao entre esse casamento e o professor de meu filho?
Com uma serenidade inesperada, Cynthia sorriu e respondeu:
	Ele  o pai da noiva.
No era nenhum segredo. Mas algum como Phillip Mason, que s conhecia Cynthia como a sra. Matthew Bauer, me de Diane Bauer, no precisava saber a verdade.
Notando o ar perplexo no rosto de Mason, Russ decidiu explicar:
	Cynthia e eu nos casamos muito jovens, e Diane nasceu pouco depois de nos separarmos.
	Eu... no sabia. Sempre pensei que Diane fosse filha de Matthew.
	A maioria das pessoas acredita nisso.
	Pois ela  uma jovem de sorte por ter um pai como esse  Mason opinou.  O doutor Shaw sempre foi um brilhante professor, e agora est se mostrando um esplndido diretor. Vai passar muito tempo na cidade?
	S at domingo.
	Se tiver algum tempo, gostaria de convid-lo para um almoo.
	Lamento, mas acho que ser impossvel. Mesmo assim, obrigado pelo convite.
	Espero poder repeti-lo outras vezes. Bem, foi um prazer encontr-lo, e parabns aos dois pelo casamento de sua filha.
	Obrigada  Cynthia respondeu, divertindo-se com a ironia da situao. Estava em St. Louis, sua terra natal, no mais novo e requintado restaurante da regio, e Russell era reconhecido. Orgulhosa com o evidente progresso, sentiu-se ainda mais curiosa que antes.
	Fale-me sobre sua vida  Cynthia pediu.
O garom os levara para uma mesa discreta, e a privacidade era um alvio depois do movimento do bar.
	Por onde devo comear?  ele riu, imitando seu tom de voz.
	Pelo momento em que se desligou do exrcito. E no omita nada, porque sei apenas que  o doutor Shaw, diretor da Hollings Academy em Connecticut.
	Resumindo, obtive meu diploma em Georgetown e fui lecionar Histria na Hollings. Com o tempo, consegui o mestrado, depois o doutorado, e finalmente fui nomeado diretor no ano passado.
	Por que decidiu lecionar? Por que escolheu Histria, a Hollings, como tornou-se diretor...?
	No posso responder nessa ordem.
	Por que no?
	Porque est falando como se fosse uma sucesso cronolgica de eventos, e no foi assim. Escolhi Histria porque a matria sempre me fascinou.
	Eu sei. Voc era um aluno brilhante.
	Depois de formado, o lgico seria procurar um emprego de professor, mas estava inseguro. No tinha nem uma casa! Havia ido diretamente do exrcito para Georgetown, e pela primeira vez em seis anos, no sabia para onde ia. Ento ouvi comentrios sobre a abertura de vagas na Hollings e fui visitar o lugar. Fiquei absolutamente encantado. A maioria dos alunos  proveniente de outras cidades, e a escola acaba assumindo o papel de famlia e lar. A camaradagem entre eles  maravilhosa, e a Hollings me deu uma famlia e um lugar para morar.
	Tem um apartamento no campus?
	Um chal alguns metros  frente dos dormitrios  ele riu.  Alm de me poupar o trabalho de procurar uma casa, ainda ganhei algum dinheiro extra sendo inspetor de alojamento.
	E como conseguiu tempo para estudar e obter o mestrado?
	Fazia os trabalhos  noite, depois do expediente.
	Deve ter sido difcil...
	Eu no tinha nada com que ocupar meu tempo livre.
	No teve nenhuma namorada?
	Algumas.
A enxurrada de perguntas prosseguia, e Russ descobriu-se relaxando diante da curiosidade natural de Cynthia.
Horas mais tarde, quando estacionou o carro e a acompanhou at a porta de casa, Russell tinha a impresso de que o peito explodiria de tanta alegria.
	Obrigada pelo jantar, Foi uma noite maravilhosa  ela disse.
	Tambm achei  sorriu, contendo o desejo de beij-la. Nick e Diane me convidaram para o caf amanh. Quer nos acompanhar?
	 melhor no. Tenho uma reunio para definir os ltimos detalhes do casamento com a florista, e voc ainda no teve muito tempo com eles. No quero priv-lo disso.
	Voc no me privaria de nada. Pelo contrrio...
	 melhor no.
	Cyn, eu realmente gostaria que fosse conosco.
Mas ela balanou a cabea. Tinha de ser firme e agir com a mente em lugar do corao. No podia abrir-se para a mesma dor novamente, pois sabia que, agora, vinte e cinco anos mais velha, seria incapaz de recuperar-se.

CAPITULO V

Russ sabia tudo sobre agir com a mente em lugar do corao. Agira com a mente na noite em que a abandonara, quando havia ingressado no Exrcito e matriculado-se em Georgetown. Agira com a mente ao aceitar o emprego na Hol-lings, e todos os dias, quando falava com seus alunos e os ensinava a ser racionais. Agir com a mente significava considerar todos os ngulos da questo e tomar a deciso mais sensata. Agir delibera-damente, em vez de seguir um impulso.
Em termos mais prticos, despedir-se de Cynthia sem beij-la, como gostaria de fazer.
No dia seguinte, quando chegou  manso dos Bauer para apanhar Diane, Cynthia no estava em parte alguma. Lembrando-se de t-la ouvido dizer alguma coisa sobre uma reunio para acertar detalhes do casamento, procurou-a novamente mais tarde, quando levou a filha de volta depois do caf da manh com Nick.
	Acha que sua me j est em casa?  perguntou com tom casual.
	Duvido. Ela tinha uma lista de coisas para fazer. Por que pergunta? Algum problema?
	No, eu... Ia me oferecer para ajudar.
	No vai passar o dia com aquele seu amigo professor?
	Sim, mas estarei livre s quatro. Sinto-me um pouco desonesto aceitando o ttulo de pai da noiva sem ajudar em alguma coisa. No h nada que eu possa fazer?
	Voc  um convidado. No precisa trabalhar.
	Sou o pai da noiva e quero trabalhar!
	Mas j est tudo pronto! Mame  boa nisso, sabe?
	Ela  eficiente.
	Muito.
	 um pssimo hbito para se desenvolver. Vou lhe dar um conselho, Diane. Quando estiver vivendo com Nick, seja indefesa e frgil de vez em quando. Os homens gostam disso.
	Mulheres modernas no so indefesas. Pensando bem, as tradicionais tambm podem ser fortes. Apenas fingem fragilidade para no assustar os homens. Nick  diferente. Ele adora minha independncia.
	Ele adora voc  Russ corrigiu. Depois de v-los juntos durante o caf, sabia que sua filha estaria em mos capazes, gentis e carinhosas, e no dava a menor importncia  conversa feminista de Diane sobre independncia. Um homem precisa sentir-se necessrio!
A idia ficou pairando em sua mente o dia todo, misturando-se s lembranas de Cynthia. Encontrou-se com Evan Waldman, que havia lecionado em Hollings antes de mudar-se para St. Louis, mas a cada pausa na conversa, Russ voltava a pensar nas mesmas coisas.
De volta ao hotel, passou pela casa de Cynthia mas no parou. No havia sido convidado, no era necessrio e recusava-se a mostrar-se oferecido.
Mas, logo depois do jantar, no pde mais suportar a solido e dirigiu-se  casa dos Bauer.
	Boa noite, senhor  o mordomo o recebeu com a educao de sempre.
	Como vai, Robert?
	Bem, obrigado, senhor.
	A sra. Bauer est?
	Acredito que sim. Se quiser sentar-se e esperar  e levou-o  sala de estar.  Vou dizer  senhora que est aqui.
	Obrigado.  Russ aceitou o convite para sentar-se, mas permaneceu na beirada da poltrona, rgido e tenso. No devia ter vindo. Cynthia ficaria aborrecida...
Mas ela o recebeu com um sorriso que, embora cansado, no tinha nada de aborrecido.
	Ol.
	Ol  ele levantou-se.  O que aconteceu? Parece abatida...
	Ah, foi um dia cansativo.
	Detalhes de ltima hora?
	De certa forma, sim. Lembra-se do acidente que padre John mencionou ontem  noite?
	Sim, mas...
	A vtima  filho de uma de minhas amigas.
	Oh, Cyn... Sinto muito. Diane.no disse nada.
	Ela no sabia. Ou melhor, ns no sabamos. Tudo foi mantido em segredo at o incio da tarde.
	O que aconteceu?
	O pai do rapaz, marido de minha amiga,  dono de uma construtora. Ele decidiu levar Jimmy para trabalhar numa das obras durante as frias de vero. O andaime desprendeu-se e Jimmy caiu.
	Qual  a extenso dos ferimentos?
	Os mdicos ainda no sabem informar com preciso. O rapaz est em coma  suspirou.  Vinte anos de idade, uma vida inteira pela frente, se acordar... e estavam preocupados em esconder a notcia de mim, porque no queriam diminuir o brilho e a alegria do casamento de Diane.
Pensando ter encontrado uma maneira de ajudar, Russ aproximou-se e abraou-a.
	Bons amigos fazem coisas como essa.
	Passei a maior parte da tarde no hospital, mas no h nada que se possa fazer alm de esperar.
	Tenho certeza de que sua presena significou muito para a famlia.
	E onde mais eu poderia estar, seno ao lado deles?  tudo to terrvel, to doloroso...
	Posso imaginar  Russ interrompeu, temendo que ela rompesse em lgrimas.  Quer dar uma caminhada?
	Agora?  Cynthia perguntou sem erguer a cabea de seu peito.
	Sim, agora.
	Est escuro...
	E da? Podemos passear e... No! Melhor ainda! Que tal uma corrida?
	Corrida?
	J fez seus quilmetros hoje?
	Sim, antes do caf da manh  suspirou.  Mas parece que foi h um sculo.
	Ento v mudar de roupa. Passaremos pelo hotel para eu vestir algo mais adequado, e depois a levarei para conhecer a trilha que tenho percorrido.
	Voc tambm corre?  Cynthia surpreendeu-se.
	Todos os dias. Por isso sei que o exerccio vai faz-la sentir-se melhor.
O que a fez sentir-se melhor foi saber que, alm de todas as outras coisas, tambm tinham um hobby em comum.
Menos de trinta minutos mais tarde, corriam lado a lado pela trilha que Russell descobrira perto do hotel.
	E ento, como se sente?  ele perguntou depois dos primeiros quilmetros.
	Muito bem. Voc tinha razo.
	Correr  um excelente exerccio.
	Especialmente quando se est deprimido. O dia de hoje foi realmente terrvel.
	Posso perceber que sim.
	A vida  to frgil! Num momento tudo vai bem, e no outro...
	Foi assim com Matthew?
	Sim, um ataque cardaco fulminante. Na segunda-feira o corao funcionava perfeitamente, e na tera parou sem dar o menor aviso prvio. No estvamos preparados.
	E algum est realmente preparado para enfrentar a morte? Especialmente depois de uma vida estvel e tranqila como a que teve com Matthew...
	Ele era um bom homem.
	Por que no teve mais filhos?
	No sei... Acho que no fazia parte do meu destino.
	Queria outros bebs?
	Sim, muito. Mas Matthew era muito mais velho que eu, e talvez tenha sido melhor assim.
	Talvez ainda possa ter outros filhos.
	Russ! Eu tenho quarenta e trs anos!
	E da? Hoje em dia a medicina  capaz de coisas incrveis.
	 verdade  ela riu, tomando o comentrio como uma brincadeira.  E voc? No quis ter mais filhos?
	Tive centenas deles ao longo desses anos.
	Estou falando de filhos verdadeiros, no alunos.
	No sabia se era digno dessa bno.
	Est brincando!
		Eu abandonei Diane, e no sabia se merecia ter outro filho. Levei seis anos para construir um relacionamento com ela e devolver a mim mesmo um mnimo de auto-respeito.
	E quer ter mais filhos agora?
Russ encolheu os ombros e indicou o caminho que deviam seguir,  esquerda.
	No tenho uma esposa.
	O que me deixa muito intrigada. Devia ter se casado novamente.
	Eu no quis. Ningum era boa o bastante para ocupar seu lugar.
	No diga isso.
	 verdade.
	Tenho os meus defeitos.
	Quais, por exemplo?
	Covardia.
	Quando?
	Quando voc partiu. Devia ter lutado para me manter independente de minha me.
	Voc no estava em condies de lutar por nada.
	Eu sei, mas devia ter tentado.
Agora conseguiam falar sobre o passado sem despertar a dor e o sofrimento de antes, sem experimentar a amargura e o ressentimento que ambos haviam abrigado no peito durante vinte e cinco anos. Conversavam e discutiam o passado sem mgoas, e isso era necessrio para que pudessem se conhecer novamente.
	Cyn?
	O que ?
	Sua me sabe que estou aqui?
	Ainda no.
	Mas sabe que estarei no casamento.
	Sim.
	E sabe que vou conduzir Diane ao altar? Cynthia permaneceu em silncio.
	No, ela no sabe  Russ concluiu.
	Viu como sou covarde?
	Voc tambm no sabia de nada at segunda-feira.
	Mas devia ter telefonado para ela no momento em que tomei conhecimento disso. Por outro lado, talvez seja melhor assim. Mame no teria coragem de criar uma confuso no meio da cerimnia, diante de todos os convidados. Ou teria?
Russ no soube o que dizer, e continuou pensando no assunto muito tempo depois de t-la deixado em casa. E quanto mais pensava, mais certeza tinha de que no podia deixar o assunto por conta do acaso. Gertrude Hoffmann podia ser bem desagradvel quando desejava, e sua intransigncia j havia destrudo um casamento. No a deixaria arruinar o dia do casamento de sua filha.
Determinado, foi procur-la na manh seguinte em sua casa, o mesmo lugar onde havia ido buscar Cynthia tantas vezes durante aqueles dias de incrvel felicidade. Normalmente estacionava na rua e acompanhava at a porta, temendo que Gertrude ouvisse o som estrondoso do velho motor. S estivera no interior da imponente residncia uma vez.
Lembrava-se de ter ficado impressionado com o tamanho, o brilho e a sofisticao do ambiente, mas naquela poca era apenas um garoto inexperiente. Agora era um homem vivido, capaz de apreciar a beleza da casa de Gertrude Hoffmann sem deixar-se impressionar por ela.
	Meu nome  Russell Shaw  identificou-se para a criada uniformizada que abriu a porta.  A sra. Hoffmann no est me esperando, mas gostaria de trocar algumas palavras com ela, se for possvel.
Russ foi levado  sala de estar e teve de fazer um grande esforo para no rir. A empregada no sabia quem acabara de receber, mas julgando-o pelas roupas, pela confiana e pela cortesia, deixara-o entrar sem a menor hesitao. Vinte e cinco anos podiam realmente virar o mundo de cabea para baixo!
	Venha por aqui, sr. Shaw  a jovem pediu um minuto mais tarde. Por um corredor escuro e silencioso, chegaram  sala de jantar, onde Gertrude tomava seu caf na imensa mesa vazia.
Por um momento, lembrou-se do que Diane havia dito sobre a solido da av e teve certeza de que nada podia ser mais triste do que a cena que testemunhava. Uma figura solitria e pattica cercada por luxo e opulncia.
	 Estava mesmo imaginando se viria at aqui  ela indicou com voz firme.  Se fosse dada  apostas, teria perdido um bom dinheiro. No pensei que tivesse coragem para me encarar depois de todos esses anos.
	Coragem  algo que nunca me faltou.
	Mesmo quando abandonou minha filha e minha neta?
	Principalmente nesse dia. Deixar Cynthia e Diane foi a coisa que mais difcil que j tive de fazer. Elas eram tudo o que eu tinha no mundo, e queria ficar ao lado delas. Mas isso teria sido egosta e covarde. No podia dar a elas o que mereciam. Na verdade, no podia dar nem mesmo o necessrio, ou o que eu queria que tivessem. Sabia que elas precisavam de sua ajuda, e por isso mandei Cynthia de volta para casa. Na minha opinio, esse foi um ato de coragem pelo qual devia estar me agradecendo.
	Agradecer? Por me embaraar diante de toda a sociedade? Por ter causado revolta e desentendimentos em minha casa?
	Por ter devolvido sua filha e por ter lhe dado uma neta que  melhor que todos ns. E por ela estou aqui. Amo Diane, e no quero que nada perturbe a felicidade que ela est conhecendo. Se deve haver algum aborrecimento, que fique entre ns, sem que ela o perceba.
	Minha neta ficou bastante aborrecida comigo durante algum tempo, e por sua causa.
	Por uma causa justa. No devia ter dito a ela que eu estava morto. Ela tinha o direito de saber a verdade.
	Para qu? Para correr atrs de um homem que j havia deixado bem claro que no a queria? No entrou em contacto com minha filha depois de fugir. Nem uma vez!
	E teria gostado, se eu a procurasse?
	 claro que no!
	O que teria feito?
	Conseguiria uma ordem judicial para mant-lo afastado delas.
	Tem alguma idia do que uma atitude como essa teria causado a Cynthia, ou a Diane? Eu parti porque achei que seria melhor para elas, e fiquei longe pelo mesmo motivo. Quando procurei Diane, h seis anos, foi porque senti que ela havia crescido o bastante para entender tudo, e porque no podia mais suportar o afastamento. Ela  minha filha, e ningum pode negar este fato.
Gertrude o encarava com firmeza, cheia de raiva e frustrao. Gostaria imensamente de negar o lao existente entre Russell Shavv e sua neta, mas sabia que era impossvel.
Russ negava-se a ser intimidado por seu olhar altivo e direto.
	No sei o que ela contou sobre nosso relacionamento. Costumamos almoar juntos uma vez por ms, e desenvolvemos uma apreciao mtua. Adoro ouvi-la falar sobre o que est fazendo, e ela gosta muito de saber o que est acontecendo comigo. Por acaso sabe onde moro?
	Diane mencionou uma escola em Connecticut.
	E disse que sou o diretor dessa escola? Fui nomeado no ano passado, escolhido entre trezentos candidatos. Ocupo uma posio de responsabilidade e prestgio.
	Onde quer chegar com toda essa auto-promoo, sr. Shaw?
	Doutor Shaw  ele corrigiu.  Estou aqui porque Diane me convidou, e estaria mesmo que no houvesse recebido um convite. Ficaria escondido no fundo da igreja, como fiz quando ela se formou em Radcliffe. Ela no sabe disso, e espero que no comente nada. Quero que minha filha seja feliz, e o passado no pode colaborar com essa felicidade. Diane me convidou para conduzi-la ao altar, e eu aceitei. Cynthia j sabe, e j retirou o convite que havia feito a Ray Bauer. No ficou encantada com a idia, mas decidiu respeitar o desejo da filha. Gostaria que fizesse o mesmo.
	Doutor Shaw, quero que entenda que tudo o que fiz foi pelo bem de minha filha. Amo minha neta com a mesma intensidade, e se entrar na igreja com voc a far feliz... no vou tentar impedir.
	Mas...
	E quero que saiba mais uma coisa, doutor Shaw. Antes que minha filha me telefonasse chorando, eu j conhecia Diane e j sabia que havia partido. Costumava passar horas sentada num carro alugado, no parque onde levavam o beb para tomar sol, observando tudo de longe.
Russ sentiu-se aturdido. Havia ido procur-la pensando em teimosia, orgulho e perda, e no entanto...
	Mais uma pergunta, sr. Hoffmann. Se Cynthia e eu voltssemos a  nos encontrar, se ela fosse me visitar em Connecticut, tentaria faz-la desistir novamente?
	Cynthia  uma mulher adulta, viva, e no posso mais controlar seus passos. Alm do mais, no tenho mais instrumentos para cont-la. Agora ela  financeiramente independente. Se decidir voltar para voc e eu tentar impedir, ela simplesmente ir embora... e desta vez no voltar.
	Ento... no vai causar problemas?
	Disse que no vou tentar impedir, mas causar problemas... Sou Gertrude Hoffmann, e no dia em que no puder causar tenso, problemas e preocupaes, certamente estarei morta. Mais alguma pergunta?

CAPTULO VI

Cynthia estava feliz. O ensaio havia sido perfeito, o jantar no Granatelli's transcorria em perfeita ordem, e Gertrude ainda no fizera uma nica objeo  presena de Russell, que no sara de seu lado desde as primeiras horas da manh.
Quando a levou para casa, horas mais tarde, Russ ofereceu-se para voltar na manh seguinte e ajudar no que fosse necessrio. Embora houvesse pouco a ser feito, Cynthia agarrou a oportunidade de t-lo por perto e aceitou a oferta.
Passaram o dia juntos, e no final da tarde Cynthia j no sabia dizer se o tremor que experimentava era ansiedade tpica de me de noiva, ou uma paixo avassaladora e irrefrevel.
s onze da noite, Russ no pde mais conter a vontade de estar a ss com ela e. inclinando-se, perguntou em voz baixa:
	Est cansada?
Sabia que devia ir para a cama e preparar-se para o dia seguinte, mas no conseguiria dormir.
	Estou to agitada, que no seria capaz de deitar e ficar quieta.
	Quer dar um passeio?
	Seria maravilhoso.
Depois de acomod-la no carro, Russ sentou-se diante do volante e segurou sua mo.
	Pensando bem, acho que no quero ir passear.
	Eu tambm no. Russ?
	Eu amo voc, Cyn.
	Oh, meu Deus  ela murmurou, antes de oferecer os lbios para o beijo com o qual sonhara durante vinte e cinco anos.
	Podemos ir a algum lugar mais calmo?  ele perguntou num sussurro.
	Sim, por favor. E depressa.
Quando chegaram no hotel, as primeiras gotas de chuva comeavam a cair sobre o pra-brisas do carro, e Russ tratou de lev-la para dentro antes que o temporal despencasse.
	No consigo acreditar no que est acontecendo  ele sussurrou fechando a porta do quarto e tomando-a nos braos.
	Mas eu estou aqui, e amo voc como h vinte e cinco anos.
Desse instante em diante, as palavras foram substitudas por gestos, carcias, beijos e suspiros. Amaram-se com paixo, como quando eram jovens, e Russ descobriu que as lembranas que o mantiveram acordado noites e noites no eram nada, comparadas ao prazer que Cynthia ainda o fazia sentir. Mais maduros, agora eram capazes de prolongar o prazer indefinidamente, at que, enlouquecidos de desejo, entregaram-se  dana alucinante que tantas vezes haviam realizado juntos, mergulhando num mundo de luzes e cores que haviam descoberto juntos h mais de duas dcadas.
Quando Russell ainda sentia a deliciosa agonia dos espasmos, percebeu que Cynthia estava chorando e abraou-a com mais fora, invadido por uma sbita inquietao.
	O que foi, meu amor?
	Eu... senti tanta falta de seus abraos! Uma parte de mim se foi quando voc partiu. No imagina como sofri. Toda aquela dor, aquele vazio... Vivia tentando me enganar, acreditando que um dia o preencheria, mas foi impossvel. Nada era suficiente para ocupar aquele imenso espao. Nem Matthew, nem meus amigos, minhas causas...
	Sei o que est dizendo. Tambm tentei viver para os meus alunos, mas foi intil. Havia sempre aquela falta, aquela dor... Ah, meu amor... No sabe como eu a amo, Cyn!
Passaram boa parte da noite fazendo amor. Saciados, conversaram e riram como nos velhos tempos como s duas pessoas apaixonadas e felizes podem fazer.
	Voc no mudou nada, Russell Shaw  ela riu, a cabea apoiada em seu ombro.  Continua insacivel.
	Veja quem fala! No tenho tanto trabalho h anos!
	Quantos anos?
	Vinte e cinco.
	Hummm.  bom saber disso.
	E voc? Conseguia enlouquecer Matthew como sempre fez comigo?
	Era diferente. Agradvel, mas calmo, sem paixo... No h como comparar.
	 bom saber disso.
	Matthew era um bom homem, Russ. Dedicado, gentil... Ele me amava, adorava Diane, e fiz o que pude para ser uma boa esposa.
	Pelo que ouvi e vi, tenho certeza de que conseguiu.
	Mas ser que o amei?  Cynthia suspirou.  Esta  a grande questo. Juro que tentei, mas nunca consegui sequer me aproximar daquele sentimento devastador que nutria por voc. No sabe quantas vezes rezei para nunca mais voltar a v-lo. Fiz verdadeiras acrobacias para no saber o que estava fazendo. Duvidava da minha fora de vontade, e sabia que no seria capaz de fugir se voc me procurasse. Tambm no tinha certeza de que no me abandonaria outra vez... No faria isso comigo, faria?
	No, meu amor  e beijou-a rapidamente nos lbios.  Eu no poderia.
	Acho que isso me mataria.
	Eu tambm morreria longe de voc.
	Ento... o que vamos fazer? Voc vai embora no domingo.
	S se no houver um lugar para mim em sua casa.
	Voc... est falando srio?
	Por que no?
	E a escola?
	Cyn, esta ainda  a primeira semana das frias de vero.
	Quer dizer que tem o vero inteiro de folga?
	Sim e no.
	O que isso significa?
	Terei de estar na Inglaterra em cinco de julho. Assumi o compromisso de passar o vero em Oxford, colaborando na elaborao de um livro sobre educao.
	Entendo  Cynthia suspirou frustrada.
	Quer ir comigo?
	Eu... posso?
	 claro que sim.
	Oh, Russ! Eu adoraria!
	Vou estar muito ocupado. Escrever um livro  uma tarefa que exige concentrao e toma bastante tempo.
	No faz mal. Vou aproveitar para atualizar todas as leituras que tive de deixar para trs enquanto organizava o casamento. Depois escreverei cartas, farei longas caminhadas...
	Eu estava planejando alugar uma casa em Costwolds. O que acha da idia?
	Maravilhosa.
	Depois, quando terminar minha parte no livro, podemos passar mais alguns dias em Londres, passeando, e ento seguir de carro at a Esccia. Acha que seria inconveniente?
	Est brincando?
	Terei de estar de volta antes do Dia do Trabalho. As aulas comearo na semana seguinte, e vou precisar desses dias para cuidar do planejamento.
	Como  o lugar onde mora?
	 simples, uma espcie de chal na parte mais afastada do campus. E claro que no  grande como a sua casa, mas  bem parecida com tudo o que sonhamos naqueles dias...
	No estou preocupada com conforto e espao. S quero ter voc a meu lado. Se morasse num barraco  beira de um rio poludo, eu o seguiria sem hesitar. Por isso fiquei to arrasada quando me abandonou.  claro que a riqueza torna a vida mais fcil, mas o dinheiro no vale nada para algum que perdeu um grande amor. No me faa passar por todo aquele desespero outra vez, Russ. Nunca mais!
Quando Russell a levou de volta para casa, os primeiros raios de sol j brilhavam sobre os telhados molhados de Frontenac.
Depois da chuva da noite anterior, o sol forte sobre a vegetao tornava o cenrio ainda mais lindo.
Os convidados preenchiam todos os espaos da igreja e esperavam ansiosos pelo incio .da cerimnia.
Cynthia tambm esperava, o corao batendo depressa sob o vestido elegante e discreto. No altar, ao lado de Gertrude, ouviu a introduo da cano escolhida para abrir a cerimnia e virou-se para a porta, emocionada com a entrada das damas de honra que, ao passarem, deixavam um rastro de ptalas brancas sobre as quais a noiva caminharia.
E ento a cano terminou e as notas da marcha nupcial encheram a igreja, fazendo com que os convidados se levantassem. Incapaz de conter as lgrimas, Cynthia viu as duas pessoas que mais amava aproximavam-se devagar e sorridentes.
Diane ostentava um sorriso radiante que iluminava seu rosto, acentuando sua beleza natural e realando a delicadeza do traje gracioso e elegante, confeccionado em seda, rendas e prolas minsculas.
Quando virou-se novamente, Cynthia viu que Nick aproximava-se do p do altar para receber a futura esposa. Gentilmente, Russ ergueu o vu da noiva e beijou-a no rosto antes de colocar sua mo na de Nick. Quando finalmente colocou-se ao lado de Cynthia, os noivos j estavam aos cuidados do sacerdote.
Cynthia sentiu os dedos de Russ entrelaando-se aos seus. Apesar das lgrimas, viu o brilho intenso em seus olhos e compreendeu que, pela segunda vez, haviam encontrado a possibilidade de serem felizes.
Enquanto Diane e Nick proferiam seus votos, Cynthia e Russ os repetiam silenciosamente e pela segunda vez.
E desta vez seria para sempre.

FIM
